Sem categoria › 09/08/2016

É uma guerra por procuração, mas acreditamos na arma da oração

REUTERS1595945_ArticoloNão cessam os combates em Aleppo, onde as forças rebeldes e o Exército de Bashar al-Assad travam um feroz combate pelo controle da cidade. São centenas os mortos nestes dias. Quem mais sofre as consequência são sempre os civis, sobretudo as crianças, como denunciou o Papa Francisco no Angelus deste domingo, apontando o dedo contra “a falta de vontade de paz dos poderosos”, em uma guerra que já dura mais de 5 anos.

O Núncio Apostólico na Síria, Dom Mario Zenari, comentou as palavras do Papa Francisco aos microfones da Rádio Vaticano:

“O Papa usa palavras fortes: “É inaceitável – diz – que tantas pessoas inocentes, civis e sobretudo tantas crianças, paguem o preço deste conflito”. E aqui eu gostaria de recordar também o contínuo chamado das Nações Unidas aos combatentes, a grande obrigação que têm os combatentes em respeitar o direito humanitário internacional, a começar pela proteção dos civis… Ban Ki-moon não cessa de repetir que também a guerra tem as suas regras… Infelizmente, no que tange à proteção dos civis, estes cinco anos e meio de guerra revelaram-se um fracasso: se pensarmos que diariamente são atingidos hospitais, escolas, mercados populares, até mesmo campos de refugiados, igrejas, mesquitas; se pensarmos que a população civil inocente foi atingida diversas vezes no decorrer dos últimos três anos, vítima por exemplo, de armas químicas: a comunidade internacional constatou, infelizmente, o uso desta arma química mesmo que ainda não tenha identificado os culpados; depois, gostaria de recordar a população civil indefesa, inocente, vítima da arma da fome: se pensarmos nas cerca de 600 mil pessoas assediadas e mais ainda, às cerca de cinco milhões que vivem em localidades de difícil acesso por causa da guerra: ainda, gostaria de recordar a população civil em algumas zonas vítimas da arma da sede: pensemos em Aleppo onde há alguns meses foram fechados os condutos de água; pensemos ainda aos remédios, às vezes também eles usados como arma: em algumas localidades é proibido o acesso aos remédios, aos instrumento cirúrgicos…. E depois, entre estas vítimas civis – como bem recorda o Papa – estão as crianças: e ali, há um ano, as estatísticas falavam de cerca de 14 mil vítimas entre crianças e menores mortos na Síria, aos quais, depois, somam-se os mortos na travessia dos mares, algumas destas crianças mortas de fome, muitas mutiladas… Vi em mais de uma ocasião em Damasco, mesmo há dois dias, crianças que indo ou retornando da escola foram atingidas por golpes e lascas de morteiros, que tiveram membros amputados… Vi uma outra criança com um olho atravessado por uma lasca…quantos eu vi! E depois estas crianças em certas localidades e também em certos campos de refugiados, são submetidas a abusos sexuais, as meninas a casamentos precoces; temos o triste fenômeno dos meninos-soldado, temos mais de dois milhões de crianças não escolarizadas… Portanto, eu diria que este chamado do Papa é muito, muito oportuno…”.

RV: O Papa falou de falta de vontade de paz dos poderosos…

“Aqui também se toca com a mão, como infelizmente a Síria tenha se tornado um campo de batalha por interesses geopolíticos regionais e internacionais. Cada vez fica mais evidente que é uma guerra por procuração; é uma guerra muito complicada e aqui se exigiria – como diz também o Papa – uma vontade mais forte, mais decidida por parte dos poderosos, para poder acalmar esta terrível guerra”.

RV: Qual é a situação dos cristãos?

“A situação dos cristãos depende da região em que se encontram; são expostos, como todos, a este sofrimento. Em relação às zonas sob controle do Estado Islâmico, não temos mais comunidade, como em Deir Ezzor, como em Raqqa; ali os cristãos partiram antes ainda da chegada do Estado Islâmico. Temos três paróquias propriedade dos Franciscanos no nordeste, na zona de Idlib: é uma zona muito, muito “tensa”, uma zona sob o domínio daquela que – até pouco dias – se chamava “al Nusra”. Ali vivem cerca de um milhão de cristãos: sobrevivem; têm a possibilidade de frequentar a igreja, de rezar, mas não podem manifestar externamente a sua fé, nem com as cruzes, nem com o badalar de sinos. Esta é a zona mais “quente” em que estão vivendo os cristãos na Síria; e depois existe a zona de Aleppo, na zona oeste, que está sob controle do exército: porém, a visitei há um mês e meio, no final de maio; estes nossos bairros cristãos são locais justamente sobre a linha de demarcação e ali vi as nossas catedrais, assim como também as ortodoxas, destruídas: algo impressionante! Portanto, os cristãos das nossas comunidades de Aleppo são atualmente aqueles mais expostos a tiros de morteiro e bombas”.

RV: Quais são as perspectivas para a Síria, hoje?

“Difícil prever, porque o conflito foi assumindo, a cada ano, aspectos particulares, complicações. Estão envolvidas diversas partes e isto é o que o torna muito difícil. No início parecia uma guerra civil, que por si só já é uma catástrofe; mas a ela se juntou, mais tarde, uma guerra por procuração, entrou depois uma outra guerra para complicar tudo e esta é a guerra do Isis, do Daesh, do Estado Islâmico, que trouxe mais sofrimentos, enormes. E a este propósito, falando do sofrimento dos civis, gostaria de recordar aquilo que as Nações Unidas, sobretudo nestas zonas – também na Síria, onde existe este Estado Islâmico – falam já de um genocídio da população yazidi por obra do Isis, onde em algumas zonas as mulheres e as jovens são até mesmo vendidas e compradas no mercado como se fossem animais: a que ponto chegamos! A que ponto a população civil paga as terríveis consequências deste guerra assim complicada!”.

RV: O Papa também convidou para sermos próximo à Síria. Mas, como ser solidário com o povo sírio?

“Ontem [no domingo, 7/8] o Papa usou uma arma: nós temos esta arma em que acreditamos; e é a arma, antes de tudo, da oração. Foi um bonito momento, quando chamou todos a rezarem em silêncio e depois rezar juntos a Nossa Senhora, pela paz. Acreditamos nesta arma da oração. E depois a solidariedade: a solidariedade efetiva para ir de encontro a este sofrimento e a esta pobreza que cresce a cada dia; a solidariedade que faz com que não se esqueça desta tragédia em que estão sofrendo tantos nossos irmãos e irmãs”.

Por Rádio Vaticano

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