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Artigos e reflexões › 29/08/2016

O mistério trinitário: falar ou não falar dele?

A preocupação filosófica no período contemporâneo é, sem dúvida, a linguagem ou o sentido mesmo das palavras. Na Antiguidade e na Idade Média, os pensadores ocupavam-se quase que exclusivamente da metafísica. O que é o ser?, perguntavam-se os antigos. Aliás, nem mesmo a chegada do cristianismo mudou essa realidade. Foi somente no século XVI, com a chegada da modernidade e a elevação do homem ao centro das relações sociais e econômicas, que as atenções se voltaram ao conhecimento: O que se pode conhecer?, era a pergunta dos modernos. Hoje, já no século XXI, a questão é de ordem semiótica: até onde determinada palavra diz algo da realidade? Wittgenstein teria terminado o Tractatus logico-philosoficus (1921) com uma afirmação emblemática: sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar.

Talvez levaram Wittgenstein muito a sério ou, até mesmo, o próprio contexto sócio-cultural assim tem exigido, mas o fato é que, mesmo na própria Igreja, pouco tem se falado sobre o mistério de Deus como Trindade. Essa realidade é, no mínimo, paradoxal, porque Deus se autorrevela por amor justamente para mostrar ao homem sua identidade mais profunda. E o que, afinal, se tem feito com esse riquíssimo conteúdo? Aliás, o que Cristo veio fazer senão revelar, dentre tantas verdades, a dimensão trinitária de Deus? O que seria da própria Igreja se não estivesse fundamentada nesse mistério do Deus comunhão?

Naturalmente que, nos primeiros séculos da era cristã, a Trindade tomou conta de diversas análises dos padres da Igreja – até porque o próprio contexto histórico assim o exigia. Naquele cenário de dúvidas e incertezas, muitas foram as heresias que, inclusive, exigiram a convocação de Concílios Ecumênicos para serem esclarecidas. Quando, porém, a modernidade chegou apresentando um novo modelo de ciência, a teologia perdeu completamente sua áurea, visto que Deus não pode ser comprovado empiricamente. Aliás, num cenário como esse, o filósofo alemão Immanuel Kant, no auge da modernidade, teria dito que a Trindade não contribui em nada com a vida prática do homem, especialmente porque esse mistério supera e muito toda sua estrutura cognitiva. Terá razão?

É fato que Deus estará sempre aquém à linguagem humana. Nenhuma palavra será suficientemente clara e concisa para expressá-lo em toda sua grandeza. Algo, porém, sempre pode e deve ser dito. O silêncio e a reverência devem vir somente depois de se tentar, inúmeras vezes, pronunciar as palavras mais belas, adequadas e próximas da infinitude divina. Antes disso, porém, a contemplação é preguiçosa – e a preguiça é considerada um dos sete pecados capitais. Porque Deus quis fazer-se homem em Jesus Cristo, à luz da Escritura é possível desenvolver um discurso sobre Deus. O que se precisa, no entanto, é atualizar o mistério à realidade humana de hoje. Como o mistério trinitário pode iluminar a vida de tantos homens e mulheres contemporâneos? Como pode ajudá-los a viver melhor? Em que aspectos a comunidade trinitária pode servir de referência e de modelo a ser seguido?

Aliás, nos anos 1970, Karl Rahner já teria afirmado que os cristãos comportavam-se quase que exclusivamente como monoteístas, esquecendo-se da dimensão trinitária de Deus. Essa atitude era concreta até mesmo a nível acadêmico, quando, seguindo a Tomás de Aquino, dividiram o tratado sobre Deus em duas disciplinas distintas: Deus Uno e Deus Trino. Será que essa “bipartição” de Deus, na tentativa de compreendê-lo a nível metodológico, é realmente a melhor maneira de abordá-lo?

O importante é lembrar-se, de antemão, que todo o edifício da Igreja se solidifica sobre o dogma trinitário, que, por sua vez, não está fechado e recluso, mas sempre aberto a novas descobertas e investigações – porque o mistério é essa fonte inesgotável de amor e de bondade. Se a base de um edifício se danificar, já dizia Kant, toda a estrutura construída fica comprometida. Portanto, que não se tenha medo de mergulhar no profundo oceano do mistério trinitário. Talvez, como Santa Catarina de Sena constatara, nunca se chegará à profundidade plena do mar, mas, sem dúvida, sempre se pode ir adiante.

Tentarei assumir esse desafio de dizer algo periodicamente sobre este mistério abissal, no intuito único de lhe fazer progredir e amadurecer na fé, que também é dom da Trindade. Sou um grão de areia perto de J. Moltmann, de K. Rahner, de Santo Agostinho, de L. Boff, de L. F. Ladaria, de Ir. Maria Freire e de tantos outros que já escreveram sabiamente sobre a triunidade. Se, eventualmente, não for claro o bastante, peço orações para este pobre pecador que, sem dúvida, ainda tem muito o que aprender e viver. Independente disso, sejam dadas, em todo o tempo e lugar, honra e glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Amém.

Tiago Cosmo é seminarista na Diocese de São Miguel Paulista. É jornalista e bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Teologia Paulo VI, em Mogi das Cruzes. Atualmente, cursa Teologia, também em Mogi, e uma especialização em Religião e Cultura no Centro Universitário Assunção (UNIFAI), em São Paulo.

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